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Há dois anos a nossa casa ficou mais pobre, perdemos um dos nossos, perdemos um pedaço de nós.

É verdade, passaram dois anos desde que a nossa Bombeira Ana Rita Pereira faleceu em combate. Foi na Serra do Caramulo no fatídico ano em que se perderam 8 bombeiros no combate a incêndios. O mesmo ano em que também a corporação do Estoril perde o Bernardo, vitima do mesmo fogo que a Rita.

A Rita tinha 23 anos e uma vida pela frente. O seu dever falou mais alto e na madrugada de 22 de Agosto de 2013 voluntariou-se para seguir com a equipa de Lisboa que rumava ao Caramulo. Voltou a Alcabideche já sem vida no dia seguinte.

A nossa corporação nunca em 88 anos de história tinha perdido um elemento em serviço, foi uma estreia muito amarga para todos nós.

Foram dias e momentos péssimos os que se seguiram ao telefonema em que recebemos a notícia. Todo o quartel ficou envolto numa neblina cinza que nos dificultava a visão do futuro.
Não sabíamos o que pensar, o que dizer, todos queriam respostas e nós não conseguíamos sequer arranjá-las para nós. Recebemos muitos telefonemas de apoio, muitas mensagens de carinho, alguns ataques também, à formação dos nossos bombeiros, à colocação em terreno, à experiência da Rita para estar naquele TO, ignorámos tudo o que era mau e apoiámo-nos no que de positivo nos chegava.

Na altura não tínhamos forças para contestar quem nos atacava, nem era essa a nossa prioridade. A Rita tinha uma filha, a Madalena. A Madalena tinha na época 4 anos, e foi para ela que deslocámos a nossa atenção, nada poderíamos fazer pela Rita, mas pela Madalena sim. Queríamos mostrar-lhe que ela teria sempre uma casa no nosso quartel, toda a atenção que precisasse e amigos que a acompanhariam para o resto da vida.
Entre processos legais, seguros, depoimentos…. conseguimos alcançar o nosso objetivo. A Madalena é uma criança feliz e sempre que quiser vir a esta sua casa, aqui estamos todos para a receber, com muitas histórias para lhe contar sobre a sua mãe. Se os seus quatro anos não lhe deixarem muitas memórias, nós iremos construi-las, porque a Madalena poderá sempre dizer a alto e bom som que a sua mãe foi uma heroína, não daquelas dos livros de banda desenhada que os meninos leem, ou as dos filmes que os adultos veem, mas daquelas da vida real, daquelas que morrem a lutar pelo seu país.

Sabemos que na época não existiu grande abertura da nossa parte para falar sobre o acontecido, não queríamos alimentar o populismo da notícia, não queríamos fazer da Rita um número, optámos por falar o mínimo possível sobre o tema, até porque não queríamos ver deturbadas as nossas palavras.

Hoje podemos falar abertamente, hoje queremos homenagear esta MULHER BOMBEIRA que merece todo o orgulho que temos nela.
O nosso orgulho estende-se também a todos os bombeiros que por este mundo fora colocam em risco a sua vida, defendem a sua população, as suas casa, os seus bens mais importantes, que a Rita, o Bernardo Figueiredo, a Cátia Dias, o António Ferreira, o Daniel Falcão, o Pedro Rodrigues, o Bernardo Cardoso, o Fernando Reis (vitimas do verão negro) e todos os outros bombeiros que morreram ao serviço sejam perpetuados nas nossas memórias.

A todos que os que cá estão, lembrem-se sempre que o lema é vida por vida e uma árvore não vale uma vida.

A Rita fez e fará sempre parte da grande família dos Bombeiros de Alcabideche, o seu lugar nunca será substituído. A sua presença está espalhada por este quartel, nas memórias de cada um, nos objetos pessoais que por aqui existem, num pequeno altar que lhe foi construído, nos carros, nas ambulâncias, na sala de bombeiro, nas camaratas mas também no local mais importante, o coração dos seus colegas.

Nunca terás um adeus, apenas um,

Até já Rita.

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